15 de novembro de 2012

Experiência


           Após escrever alguns textos para o blog o grupo sente-se confortável em expor um pouco da vida pessoal e seu olhar sobre a educação. Um grupo com uma formação bem diversificada e história de vida tão distinta uniu-se para escrever, o que escrevemos é nossa crença sobre determinado assunto que se encaixa no eixo norteador, sempre com a contribuição de nossa utopia e experiência, segundo Jorge Larossa “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece”.

O que nos acontece...

Pelo menos sete anos da minha vida sofri calada juntamente com a minha mãe. Meu pai ficava cismado com qualquer coisa. O álcool o transformava. E mais uma vez, minha mãe sofria com a violência e acusações injustas. Ela tentou por diversas vezes fugir de casa, mas sempre era em vão, pois meu pai nos encontrava.
Tudo estava entrando nos eixos, meu pai estava mais tranquilo, mas no final do ginásio recebemos uma notícia em casa meu pai foi assassinado numa briga de bar ao lado da escola onde eu estudava. Fiquei um tempo sem ir à escola, entrei em depressão, todo mundo ficou sabendo do acontecido e depois de uns 15 dias, mais ou menos, a professora procurou a minha mãe e foi até em casa, conversou bastante comigo e voltei para escola, para terminar o ginásio. A escola era o único lugar em que me sentia protegida.

O que nos passa...

Iniciei a faculdade ainda quando nova, porém precisei trancar, pois estava grávida e meu filho se constituiu em prioridade. Fui morar com o pai dele e não conseguir conciliar as funções, passado algum tempo a relação desgastou e separamos, mudei de cidade e novamente insisti na faculdade, agora pedagogia em uma federal, estava super feliz e contente certa da minha capacidade.Fique noiva de homem que morava na cidade, quando já não esperava resolvi deixar tudo de novo e abandonar a faculdade no penúltimo ano e voltar para o meu marido em São Paulo. Agora com o seu apoio estou na faculdade novamente e certa que desta vez tudo dará certo.

O que nos toca...

Desde cedo convivo com pessoas simples assim, como eu e minha família, minha educação escolar foi tranquila e vida familiar também. Como muito esforço meus pais conseguiram conquistar suas coisas e passaram o valor do trabalho para mim e meus irmãos. Atualmente, assim como eu estou fazendo faculdade, meus irmãos também conseguiram ingressar na universidade, minha irmã faz gastronomia com bolsa pelo PROUNI e meu irmão faz engenharia em uma universidade federal. O que aprendemos é sempre valorizar o que temos e lutar pelo melhor de forma digna e respeitosa, sempre acreditando na educação.

Não o que acontece...

Nasci na favela em São Paulo e fui criada com meus pais e meus irmãos, desde muito cedo presenciei os dois lados da sociedade, vi o lado do crime e o do que era correto. Meus pais sempre nos incentivaram para ter o melhor e construir o melhor com nosso esforço, na escola sempre fui dedicada e adorava, até que aparecer uma professora sem sensibilidade nenhuma que me marcou muito.
Infelizmente nem todos os filhos são como os pais querem, e o meu irmão desviou do caminho apesar de todas as orientações e educação que recebemos em casa. Desde meus 11 anos, sei o que é a dor de uma mãe e de um pai em perder seu filho para o mundo do crime. Aos 15 anos ele foi para FEBEM foi lá que ele terminou o ensino fundamental e médio, talvez por este motivo gosto tanto do educador social. Atualmente, ainda vive esta situação de privação da liberdade. Não é fácil para família que já sofreu e que ainda chora por ele, além do preconceito que existe, pelo qual passamos. Eu me recuso a aceitar que este seja o destino de alguém, mesmo quando está é a sua opção de vida como no caso da nossa família. Que um dia ele acerte o trilho da sua vida, que possa se transformar e somar na sociedade com uma vida realmente digna.
Não consigo entender como ele se perdeu, minha irmã é formada em recursos humanos e eu sonho em conseguir através da educação resgatar pessoas como meu irmão, que por um acaso da vida desviaram do caminho. Não é fácil aceitar a realidade que vivemos de braços cruzados e eu acredito muito que a educação pode contribuir para transformar algumas realidades.


Não o que se passa...

A única pessoa que eu tinha na vida morreu e eu tive que morar em um orfanato, com apenas oito anos de idade. Isso me prejudicou na escola, pois fui transferida no meio do ano letivo, fiquei desanimada me desinteressei totalmente pelos estudos.
No ensino médio passei estudar no período noturno, não tinha motivação e os professores pareciam estar lá por obrigação e somente por isso, o que me consolava eram os amigos que havia feito. Depois de concluir o ensino médio fiz um ano de cursinho pré-vestibular e logo depois entrei na universidade e agora estou no curso de Pedagogia, conhecendo, aprendendo mais sobre educação, compartilhando minha experiência, e crescendo como ser humano. Estar no curso me faz acreditar cada vez mais na educação e no papel do educador na sociedade.

Não o que toca...

Meu desejo de ser professora vem de pequena, sempre quis ser professora! Ainda me lembro com muito carinho das brincadeiras e nelas sempre estava eu, de professora é claro. Sempre fui um pouco descabeçada em relação aos estudos, no ensino médio acabei parando de estudar, consegui um emprego e fui trabalhar para ajudar meus pais e ter a minha independência como todo jovem quer ter. Trabalhar não foi tão fácil como pensei, não consegui conciliar e acabei reprovando.
Logo depois acabei ficando grávida de um menino que hoje é minha vida! Ele é a minha inspiração, sem ele eu não seria nada. Logo depois que o ganhei voltei á trabalhar, ser mãe não é fácil assim como nos comerciais! Meus pais sempre me apoiaram, sinceramente não sei o que seria de mim sem eles. Com o tempo me bateu um forte desejo de voltar a estudar, de ser alguém melhor e dar referencias ao meu filho. E no ano de 2009 através da EJA, consegui concluir o ensino médio e foi através desse episódio que me bateu o desejo forte de ser uma educadora. Eu fiquei fascinada com a forma com que as professoras ensinavam aquelas pessoas, como eles respeitavam a cultura de cada um, sem falar no carinho que eles transmitiam para com seus alunos e isso é muito gratificante. Saber que ainda existem professores que acreditam na educação.

 Para Jorge Larousse “O conhecimento é comum, mas a experiência é para cada qual sua, singular e de alguma maneira impossível de ser repetida. O saber da experiência é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto de quem encarna.” Desta maneira mesmo com a mesma graduação e vivências do cotidiano na faculdade a experiência será única para cada uma.


                                                                         Foto: Arquivo pessoal




Ana Paula, Bianca, Carla, Érica, Jéssica e Marcia.

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