Após
escrever alguns textos para o blog o grupo sente-se confortável em expor um
pouco da vida pessoal e seu olhar sobre a educação. Um grupo com uma formação
bem diversificada e história de vida tão distinta uniu-se para escrever, o que
escrevemos é nossa crença sobre determinado assunto que se encaixa no eixo
norteador, sempre com a contribuição de nossa utopia e experiência, segundo Jorge Larossa “A
experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se
passa não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas,
porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece”.
O que
nos acontece...
Pelo
menos sete anos da minha vida sofri calada juntamente com a minha mãe. Meu pai
ficava cismado com qualquer coisa. O álcool o transformava. E mais uma vez,
minha mãe sofria com a violência e acusações injustas. Ela tentou por diversas
vezes fugir de casa, mas sempre era em vão, pois meu pai nos encontrava.
Tudo
estava entrando nos eixos, meu pai estava mais tranquilo, mas no final do
ginásio recebemos uma notícia em casa meu pai foi assassinado numa briga de bar
ao lado da escola onde eu estudava. Fiquei um tempo sem ir à escola, entrei em
depressão, todo mundo ficou sabendo do acontecido e depois de uns 15 dias, mais
ou menos, a professora procurou a minha mãe e foi até em casa, conversou
bastante comigo e voltei para escola, para terminar o ginásio. A escola era o
único lugar em que me sentia protegida.
O que
nos passa...
Iniciei
a faculdade ainda quando nova, porém precisei trancar, pois estava grávida e
meu filho se constituiu em prioridade. Fui morar com o pai dele e não conseguir
conciliar as funções, passado algum tempo a relação desgastou e separamos,
mudei de cidade e novamente insisti na faculdade, agora pedagogia em uma
federal, estava super feliz e contente certa da minha capacidade.Fique noiva de
homem que morava na cidade, quando já não esperava resolvi deixar tudo de novo
e abandonar a faculdade no penúltimo ano e voltar para o meu marido em São
Paulo. Agora com o seu apoio estou na faculdade novamente e certa que desta vez
tudo dará certo.
O que nos toca...
Desde
cedo convivo com pessoas simples assim, como eu e minha família, minha educação
escolar foi tranquila e vida familiar também. Como muito esforço meus pais
conseguiram conquistar suas coisas e passaram o valor do trabalho para mim e
meus irmãos. Atualmente, assim como eu estou fazendo faculdade, meus irmãos também conseguiram ingressar na universidade, minha irmã faz gastronomia com bolsa pelo PROUNI e meu irmão faz
engenharia em uma universidade federal. O que aprendemos é sempre valorizar o
que temos e lutar pelo melhor de forma digna e respeitosa, sempre acreditando
na educação.
Não o
que acontece...
Nasci
na favela em São Paulo e fui criada com meus pais e meus irmãos, desde muito
cedo presenciei os dois lados da sociedade, vi o lado do crime e o do que era correto. Meus pais
sempre nos incentivaram para ter o melhor e construir o melhor com nosso
esforço, na escola sempre fui dedicada e adorava, até que aparecer uma professora
sem sensibilidade nenhuma que me marcou muito.
Infelizmente
nem todos os filhos são como os pais querem, e o meu irmão desviou do caminho
apesar de todas as orientações e educação que recebemos em casa. Desde meus 11
anos, sei o que é a dor de uma mãe e de um pai em perder seu filho para o mundo
do crime. Aos 15 anos ele foi para FEBEM foi lá que ele terminou o ensino
fundamental e médio, talvez por este motivo gosto tanto do educador social. Atualmente, ainda vive esta situação de privação da liberdade. Não é fácil para família que já sofreu e que ainda chora por ele, além do
preconceito que existe, pelo qual passamos. Eu me recuso a aceitar
que este seja o destino de alguém, mesmo quando está é a sua opção de vida como
no caso da nossa família. Que um dia ele acerte o trilho da sua vida, que possa
se transformar e somar na sociedade com uma vida realmente digna.
Não consigo entender como ele se
perdeu, minha irmã é formada em recursos humanos e eu sonho em conseguir
através da educação resgatar pessoas como meu irmão, que por um acaso da vida
desviaram do caminho. Não é fácil aceitar a realidade que vivemos de braços
cruzados e eu acredito muito que a educação pode contribuir para transformar
algumas realidades.
Não o que se passa...
A única pessoa que eu tinha na vida
morreu e eu tive que morar em um orfanato, com apenas oito anos de idade. Isso
me prejudicou na escola, pois fui transferida no meio do ano letivo, fiquei
desanimada me desinteressei totalmente pelos estudos.
No ensino médio passei estudar no
período noturno, não tinha motivação e os professores pareciam estar lá por
obrigação e somente por isso, o que me consolava eram os amigos que havia feito.
Depois de concluir o ensino médio fiz um ano de cursinho pré-vestibular e logo
depois entrei na universidade e agora estou no curso de Pedagogia, conhecendo, aprendendo mais sobre educação, compartilhando minha experiência, e crescendo como ser humano. Estar no curso me
faz acreditar cada vez mais na educação e no papel do educador na sociedade.
Não o que toca...
Meu desejo de ser professora vem de
pequena, sempre quis ser professora! Ainda me lembro com muito carinho das
brincadeiras e nelas sempre estava eu, de professora é claro. Sempre fui um
pouco descabeçada em relação aos estudos, no ensino médio acabei parando de
estudar, consegui um emprego e fui trabalhar para ajudar meus pais e ter a
minha independência como todo jovem quer ter. Trabalhar não foi tão fácil como
pensei, não consegui conciliar e acabei reprovando.
Logo depois acabei ficando grávida de
um menino que hoje é minha vida! Ele é a minha inspiração, sem ele eu não seria
nada. Logo depois que o ganhei voltei á trabalhar, ser mãe não é fácil assim
como nos comerciais! Meus pais sempre me apoiaram, sinceramente não sei o que
seria de mim sem eles. Com o tempo me bateu um forte desejo de voltar a
estudar, de ser alguém melhor e dar referencias ao meu filho. E no ano de 2009
através da EJA, consegui concluir o ensino médio e foi através desse episódio
que me bateu o desejo forte de ser uma educadora. Eu fiquei fascinada com a
forma com que as professoras ensinavam aquelas pessoas, como eles
respeitavam a cultura de cada um, sem falar no carinho que eles transmitiam
para com seus alunos e isso é muito gratificante. Saber que ainda existem
professores que acreditam na educação.
Para Jorge Larousse “O conhecimento é comum, mas a
experiência é para cada qual sua, singular e de alguma maneira impossível de
ser repetida. O saber da experiência é um saber que não pode separar-se do
indivíduo concreto de quem encarna.” Desta maneira mesmo com a mesma graduação
e vivências do cotidiano na faculdade a experiência será única para cada uma.
Foto: Arquivo pessoal
Ana Paula, Bianca, Carla, Érica, Jéssica e Marcia.